Quanto custa morar no Vale do Silício?

Natasha de Caiado Castro
Aerial Cityscape view of San Francisco and the Bay Bridge with Colorful Sunset, California, USA

Uma van sem motor é o custo para morar no Vale. Não é nenhum segredo que o ecossistema do Vale do Silício não se replica e atrai a todos os idealistas com ideias muito criativas para mudar o mundo. O lugar nasceu de uma universidade que aceitava mulheres e não ensinava cristianismo já quebrando todos os tabus. Com isso “colecionava” mentes inquietas que criaram grandes empresas, que atraíram grandes executivos e grandes parceiros, consequentemente, grandes investidores.

Hoje a indústria de startups movimenta a região. Todos têm uma ideia ou empresa em fases diversas de maturação e todos os recursos estão aqui, só precisa ter a coragem de se expor em intermináveis sessões de network. Com foco em uma semana, o “startapeiro” tem a ideia, constrói o business plan considerando todos os players de mercado, arruma pares e investidores, testa o produto, corrige o caminho e se lança no mercado. Eu mesma já fiz isso em formato de laboratório. Lancei um delivery de sorvete com um grande professor da região. Até tivemos demanda, apesar de não termos os produtos. E a ideia veio de observar o delivery de combustível de um rapaz que estava também testando o conceito comigo, sem que eu soubesse. Coisas do Vale.

Isso aqui é a bolha da bolha da bolha. Morando em frente à delegacia, por mais de um ano, nunca ouvi uma sirene. O foco é outro. Ninguém quer tirar vantagem de ninguém, o “barato” está em criar empresas, fazer código – a nova linguagem que todos precisam saber para conseguirem se comunicar por aqui. Ou vão andar com tradutores, os hackers que são a tribo local. Mas o que queria mesmo contar aqui é sobre o Quartel General de uma empresa de Cingapura, Halogas (GLP).

A história aconteceu quando estava saindo de uma reunião na 42, escola que está mudando o conceito de educação no qual alunos ensinam alunos a codificar e com isso estão melhorando os algoritmos e fazendo com que unicórnios (empresas com mais de um bilhão de dólares), como Apple, Google, Facebook e Amazon derrubarem o pré-requisito de cursos universitários, já que a maioria dos “cadetes” não tem idade universitária e estão assumindo cargos gerenciais. No estacionamento tinha uma van antiga pichada (ou decalcada) com os dizeres “Halogas” (nome da empresa) US HQ, e três jovens em reunião em frente da van.

A curiosidade foi maior que o senso de discrição e fui “fazer network“. Resumindo, o rapaz de 21 anos veio de Singapura com o sonho de conseguir investidor para sua startup-uber de gás de cozinha. Percebeu que a concorrência era grande e que não falava a “língua” necessária (código) e como o ensino não tem custos, além de terem direito a dormitórios, workshops, acesso livre 24/7 a computadores potentíssimos e carregados de todos os programas necessários, decidiu há um ano começar a codificar ali na 42. Como não se deu bem com os companheiros de quarto, decidiu comprar uma van por 300 dólares, guinchou para o estacionamento da escola por 100 dólares, pintou e mobiliou com 150 dólares (moveis do Ikea e aquecedores de camping), e com investimento de menos de 600 dólares “mora” no vale do silício, tem escritório garantido em um dos metros quadrados mais caros do globo e está “bombando” com o lançamento do seu negócio.

Disrupção? Resiliência? Foco? Inteligência emocional? Pode dar o nome que quiser. Enquanto casas de madeira são alugadas pelo valor de mansões em outro lugar do mundo, o empresário achou seu lugar ao sol. E olha que bate sol forte aqui na Califórnia.Diz se isso não faz repensar conceitos?

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